sexta-feira, 13 de junho de 2014

Prescrito

  Bom, então boa noite. Te encontro nos corredores do hospital de novo, se eu sobreviver ao quarto gelado e a comida de merda, a ironia das enfermeiras e a animação do residente em fazer pontos onde não há corte.
    Já ouviu falar daquela doença que vai enfraquecendo abatida do coração, e quando ele para de bater, você percebe que esta curada? Não? Eu estava curada, e o meu sangue sabia percorrer o caminho difícil das minhas artérias. Devia deixar o seu sangue livre também, um pouco de liberdade não faz mal a ninguém.
   Mas eu acho que o seu caso é um pouco mais grave que o meu, você sente uma dor no peito mais forte que a da consciência. Alias, ouvi a enfermeira dizer que a coisa ta feia, acho melhor fazer o testamento e deixar os seus discos e livros para alguém que realmente aprecie.
   Pra não ser mesquinha, pois também estou na merda, fiz meu testamento também, e é bem simples, são algumas palavras e um punhado de lembranças, que cabem entre as suas mãos. Mesmo sabendo que as suas mãos tremem, eu vou colocar o resto do meu futuro nelas, porque meu caro vizinho de quarto, somos considerados pacientes terminais com sérios problemas de palpitações.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Nem por 1 centavo...

    Eu disse pra você que era doente, até contei pro meu terapeuta que ficou se fingindo interessado na nossa merda de vida. Sei que nós não temos um café na esquina de casa, que os nossos dias passam de acordo com o ponteiro do relógio e que o nosso dinheiro é contado por vinhos. 
    O meu terapeuta disse que não passamos de um casal normal, como se não tivesse problema algum nisso, e disse mais, que você era um vagabundo que deveria largar dos pincéis e começar a procurar um emprego que desse dinheiro. De certa forma, acho que exagerei na interpretação, acho que ele quis dizer que, estamos fadados a ter a vida financeira de artistas armadores e gastos de um bancário
   Nossas vidas espumavam, e nossos corações eram sempre a uma batida de um infarto. Agora as moedas tomaram nosso cotidiano, e o barulho delas em meu bolso irrita. Não sinto orgulho do meu novo endereço, nem da pia cheia de louça suja. 
   Viver em uma casa perdida, e ainda ter o meu nome ao lado do seu, nem que seja na lapide ou até gravado em uma arvore como demonstração de um amor clichê. Mas o mundo não é mais o meu nem o mesmo sobre o meu olhar doente, eu transformei a sua vida na minha escória.
   Deixe as moedas tocarem a sinfonia da minha pobreza, enquanto você pinta com o cheiro do café de merda que sai da cozinha. Já que eu não soube te fazer feliz, o que me resta é ir embora, subir essa rua esburacada e comprar os meus remédios. Melhor dizendo, ainda estou doente.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Acho que não...

   E quando se inicia uma nova fase da vida, onde finalmente achou algo para preencher o cômodo vazio. Tira o pó da sala, troca a mobília, encera o chão, ascende a lareira e coloca uma musica alta pra abafar os sussurros, e o rangido da madeira velha. Abre a janela e deixa o ar fresco entrar, para que possa respirar, sem espirrar, tossir ou chorar. Agora, aqui quem vos escreve, são esperanças amargas que saíram com o pó e que não pretendem voltar e que lhes deixam apenas um monte de palavras de vários eu líricos e de um eu mesmo, que não sabe quando volta e se volta a encher a sala de poeira.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Para a onça, uma peônia

O meu céu tem tom de sépia, e minha vida tem som chiado. Tem pequenas coisas as quais cometi erros que não me arrependo, e pequenos acertos que deveria ter errado. Tem sempre algo pra tentar consertar e acaba sendo mais útil quebrado. Ideias sempre a serem concretizadas, e sonhos sendo apenas sonhos.
Esperei e espero grandes coisas de mim, esse é o problema. A minha incapacidade de fazer coisas que sou capaz de fazer, quem vai entender? Eu construí um muro a minha volta, onde as pessoas picham do lado de fora. Onde os meus gritos de socorro, não passam de meros sussurros.
Eu não espero muita coisa de toda essa divagação que já esta me dando nos nervos, mas eu espero que você pare de pichar o meu muro. Eu espero também que pare de me enfrentar. Você não podia me encher de esperanças, nem tirar o tom de sépia do meu céu. Não deve cutucar a onça cheia de fome com as próprias mãos.
Talvez não seja digno desse texto de amor, irá, violência, ou sei lá o que. Nem eu. Mas já que resolveu fazer uma copia da chave do meu apartamento, trazer suas roupas pro meu guarda roupa, dormir na minha cama, molhar o piso do meu banheiro, fazer o meu café da manhã e aturar a desgraça do meu cotidiano, suporte também todo o amor que estou disposta a dar, e no outro dia, negar.
De um dia pro outro o “eu” passou a ser “nós”, e as garrafas de vinho passaram a secar mais rápido, o mundo ficou maior, e o mito do vazio impreenchível, preencheu. Assim como atingir o céu foi tão fácil, e medo de cair só aumentou. Nada são apenas rosas, há crisântemos no meio e algumas peônias pra salvar os fins dos dias. E tudo que perdemos na vida,abre espaço para o novo.
E como consigo a proeza de respirar com isso tudo? O seu corpo por cima do meu amassa a minha roupa e esmaga os meus pulmões, o seu cabelo ataca a minha alergia e o seu sorriso acaba com as expectativas sobre o meu dia. E as nossas discussões faz a casa ganhar mais 1.000 m².
Eu entendo quando você sai sem dizer até mais, assim quando você entende quando eu apenas fico, dizendo tudo. Não se aturar por muito tempo, pode ser parte do segredo. Ou eu posso fazer do segredo, uma eternidade. Só preciso de um fio do seu cabelo para enterrar na encruzilhada, enquanto troco minha alma pelo seu amor eterno.
E quando tudo isso acabar, espero que não saia com um soco na parede, cacos entre o sofá e o tapete ou em um monte de palavras ditas sem necessidade. Que o amor saia pelos poros, espalhe no ar, seja levado pela primeira brisa e contamine outra pessoa. Talvez a vida nos preencha de novo, para não sentirmos falta um do outro. Para que possamos transformar isso, finalmente em um final feliz.

domingo, 27 de outubro de 2013

Beautiful Minds

  Espalhamos sangue de mosquitos na mesa, esmagamos as formigas contra o chão, lutando sem mexer um músculo, resistindo ao lodaçal sem valor da criatividade, de jovens quadrados tentando se encaixar em buracos redondos. Estamos anestesiados de hipocrisia, e tontos de tédio.
   Queremos encontrar a nossa tribo, com lealdade, amor, sinceridade e tristeza o suficiente, com ambição de causar overdose. Que não se arrependam, pois o que fizemos pagou a divida, mesmo não valendo o preço. Até porque somos jovens, feridas expostas, umas infeccionam, outras se curam, e umas começam de novo em uma cicatriz. Na minha tribo não escorre sangue nos olhos nem vida entre os dedos. Escorre vontade pelo corpo inteiro.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Aqui não tem milagres!

    
  Vou ir pra bem longe antes que o amor me deixe aparte, e não importa, qualquer palavra que disse foi e será inútil. A cada suspiro, cada osso que quebrado, cada passo, cada dia, cada palavra, cada jogo perdido. Agora acredito quando dizem que olhos reais realizam mentiras reais, mas a minha teve prazo de validade, e espalhou um cheiro ruim por todo o quarto. 
    Por cada valor distorcido e mentira contada, nada mais justo que manter a janela fechada e continuar apenas te assistindo, tendo flashbacks todos os dias dos piores momentos, das suas piores desculpas. Não importa o quanto o tempo passe ou a vida mude, você sempre vai deixar a panela no fogo, até tudo queimar.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Like a lie

Você foi o sortudo que cegou os meus olhos e quebrou meu coração, que tem no olhar a arrogância mais admirável do universo, e que leva os erros até a linha de chegada. Não te culpo por colecionar coisas idiotas, tipo o meu coração que só bate quando quer e que fingi não ligar pra nada, ele é estúpido, igual quem o roubou.
Um dia seus erros e os meus irão revelar a verdade, somos idiotas amantes da irresponsabilidade de amar. Portanto, enquanto isso continua respirando, nós sangramos, como uma mentira, coletando erros e defeitos, deixando esvair o que há de bom para sermos o pior, para sermos para sempre.

domingo, 8 de setembro de 2013

De Segunda Mão



  Como havia dito na minha ultima viagem, estou completamente sem rumo e sem imaginação, fora da validade. O que me falta é a falta de lucidez, podia fechar os olhos por um minuto e imaginar o que as estrelas guardam, ir direto para um dia ensolarado na Califórnia, terminar ele numa festa em Paris e acordar ao lado de um Pub fechado em Londres completamente embriagada, expelindo sonhos. Nunca haverá metáforas o suficiente, mas o que sempre haverá é a eterna duvida do que realmente quero e como faço pra mudar a minha opinião sobre eu mesma. Uma chupeta e um cobertor já não são mais minhas prioridades.
    O que me falta é o remédio para a dor de cabeça, e um calmante pra aguentar a rotina, estou tomada de uma racionalidade irritante. Encontro-me em uma vida movida pela bateria do celular. Definitivamente estou cansada de ser cheia de palavras, praticamente um dicionário no lugar do cérebro e uma rocha no coração. É mais fácil achar o problema do que a solução. Fazer drama é muito mais elegante, se jogar pela janela do ultimo andar então. Mas de uma coisa eu com certeza me orgulho, da linda combinação de roupas de segunda mão que fiz hoje.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Quem dera um déjà vu

   Apenas vejo flashes dos seus sorrisos em minha memória. Eu sei que o que as circunstâncias levaram direto para as pedras afiadas do chão não volta mais. Eu desaprendi a escrever sobre você, desaprendi a sentir a sua falta, desaprendi a sua essência e estou desaprendendo o seu sorriso. Tornei-me uma ignorante sobre os fatos que te envolvem, fui desleal a suas memórias. Como se tudo que me fazia sangrar resolvesse estancar a hemorragia, agora nada mais vaza, tudo esta contido, pacato e tedioso. 
   E quando tudo se esvaiu da minha memória, esqueci as formulas e abri meus olhos, a vida era outra. Talvez, se eu tivesse deixado às memórias caírem iguais a você eu não teria esse momento de impacto, de olhar a vida pela janela ou sorrir pra coisas supérfluas. Eu desaprendi você e por consequência não sei mais quem sou. Tenho que me reaprender sem você, e arranjar novos motivos para sorrir. 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Ingenuo

Dedico este texto para mim, como forma de sustento ao meu egoísmo.

Parte 1- Pré Guerra
   Não se preocupe, vai ser simples, direto, pois metade das minhas ideias já se esvaiu. Apenas não tente ler as entre linhas porque não há, ou há? São só palavras, sussurros direcionados a uma parede bege sem ouvidos. Broxante, eu sei, a normalidade é o mais terrível dos males, é o que a vida mais teme, é o que a literatura repudia e é o veneno do artista. Cabe à filosofia discutir a normalidade, ou deixa-la diluir no cotidiano?

Parte 2 - A batalha 
   Viver e pensar são uma afronta à sociedade. Mas que seja, pois minha vontade é ir à guerra, pegar a minha espada e estripar os princípios mesquinhos, hipócritas que todos respeitam da boca pra fora. Queria enfiar a lamina na barriga da burocracia e desliza-la até o pescoço! Como me enoja ver o mundo cuspindo sangue na cara de todos, e continuamos procriando essa raça de parasitas.

Parte 3 - A rendição
   Meus dedos estão pregados na parede com os pregos enferrujados dos meus delírios, e o que sobrou foi o resquício de um homem, o resquício dos meus ideais. De que adianta a valentia de um ser rodeado de ignorância? De que adianta a minha arte se só eu a aprecio? Ensinar? Acredito ser tarde demais. Mas o sangue que escorre na parede ainda desenha o belo retrato de uma linda ilusão, e de uma batalha injusta que não me arrependo de ter lutado. 

sábado, 8 de junho de 2013

Dust To Dust

  Um tiro é tudo que peço. Para me tirar o ultimo suspiro de ilusão, para me levar ao pó de uma pseudo-existência. Que pobre ser sou eu, nego minha realidade e meus desamores pra viver em um mundo criado para me torturar com esperanças.
   Toda felicidade que vejo faz meus olhos queimarem de inveja, queria rouba-la e tranca-la em minha casa, quem sabe assim poderei ouvir mais do que o rangido da madeira causado pelo peso do meu corpo cheio de gordura e lastima. Tenho estrias na alma de tanto preenche-la e esvazia-la de fé em algo que nunca me salvou.
  Meus olhos transparentes que apenas refletem coisas mas não entendem nada, carregam uma grave hipermetropia, pois já não enxergam o que está bem na minha frente. Se a felicidade um dia esteve perto de mim, eu não vi.
   Como posso voar se as minhas asas estão atrofiadas e meus pés não sabem a direção certa? Sinto falta do que nunca tive, e no fim a resposta certa sempre foi você, e você sempre quis ser a pergunta. Apenas um tiro, para acabar com a falta de amor, para acabar com a falta de vida.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Brasil, apenas um sonho intenso

   
  Hoje me deparei com uma situação envergonhante. Milhares de pessoas se levantaram, estufaram o peito e começaram a cantar o hino nacional com maior orgulho de ser brasileiro, aquela mesma emoção que a maioria sente ao cantar a musica de abertura da novela das nove. 
   Como sempre, fiquei sentada, pois não sou hipócrita, não vou cantar o hino de uma pátria em que o povo não sabe votar e ainda reclama de ser roubado pelos mesmos que eles colocaram para os representar, e esses que os representam, muitos deles que dizem não ter desviado verbas destinadas a educação dessa pobre população alienada. Mas tem os que falam "E o bolsa família?", um povo digno não é apenas aquele que alimenta o corpo, mas que também alimenta a mente. 
   Entre outras mil, és tu, Brasil, que envergonha e oprime quem deveria ajudar, és tu Brasil que prefere mostrar como face as bundas das mulatas de Ipanema, és tu Brasil que me envergonha, és tu Brasil que nem sequer um dia ouvira ou irá ler meu nome, muito menos esse texto, pois tem outras mil coisas pra fazer, como ir dançar a noite inteira uma musica que só repete sons incompreensíveis. Ó Pátria amada, idolatrada, salve! Salve!