sexta-feira, 4 de março de 2011

Entre a fumaça há verdade inventada.

   Flora vivia em uma linda cidade, tinha uma linda casa e um namorado sempre a disposição para atender todos os seus desejos e seus gritos de socorro raramente ouvidos. Mas havia algo de errado em sua vida. 
   Ao olhar de estranhos ela era perfeita, ao meu olhar é perfeição até demais. Comecei a bancar a espiã, observando cada passo e cada suspiro, sempre atenta ao seu andar e sua desenvoltura com as pessoas ao seu redor, seus sorrisos, sua voz e o cheiro maravilhosamente hipnotizante assim como seu olhar profundo.
   Saia de casa as sete da manhã, haja disposição, passava em uma banquinha de flores ao lado de sua casa pelo menos duas vezes por semana, depois chegava ao prédio em que trabalhava na parte administrativa, saia ao meio dia em ponto para almoçar e para se encontrar com seu namorado muito feio pra beleza estonteante dela, saia de la ao meio dia e quarenta e cinco e ia para casa - tudo muito perto, a casa a banquinha de flores, o trabalho e o restaurante, tudo em duas quadras - e voltava para o trabalho as uma e meia, de la só saia as seis da tarde, e ia direto pra casa, só nas sextas passava na casa de uma amiga com roupas extravagantes com uma animação contagiante, depois disso só saia tarde da noite. Nos sábados ela ia visitar seus pais, no cemitério. Aos domingos sua casa era cheia de amigos e parentes. Em sua rotina não parece ter lugar para o tédio muito menos espaço para algum mal ou tristeza. 
   Afinal, por que desconfiava tanto assim de Flora? Algo dentro de mim sempre dizia nada é tão perfeito, a claro, o namorado dela é muito feio e seus pais não estavam mais presentes em sua vida, mas a questão não é essa, e sim que ela escondia algo que fugia do meu olhar atento. Claro, não ficava vinte e quatro horas vigiando seus passos seguidos do maravilhoso som do seu salto alto batendo contra o chão. Por que tudo nela parecia tão perfeito e tão falso ao mesmo tempo?
   Era sábado a noite, a ausência do sono já estava me entediando, resolvi então ir para o bar, falar muita merda depois de algumas vodkas. Desci as escadas, peguei meu casaco jogado em cima do sofa, calcei meu all star e fui procurar algo para fazer.
   La fora estava frio, um vento gélido passava por mim e brincava com os meus cabelos fazendo eles ficaram cheios de nós que vai exigir alguma parte do meu precioso tempo para pentea-los. Cheguei no bar, subi mais dois degraus, sentei no banco e comecei a falar com a atendente já acostumada com os meus assuntos chatos que nunca mudavam, mas o que realmente havia mudado la era a sua expressão do nada, olhei para traz para saber o motivo.
   Entrou no bar uma mulher com um casaco preto, meia calça preta e um sapato envernizado, fui subindo o meu olhar até seu rosto, uma boca tão vermelha quanto uma rosa, e cabelos tão loiros como o brilho do sol. Era Flora.
    Sentou ao meu lado, pegou um cigarro da bolsa e o acendeu, olhava fixamente para a atendente, e disse:
   - Tentei tirar essa dor do peito, fiz você me odiar Clarice, quem deveria me odiar aqui era eu mesma. Sou tão fria, tão falsa, não quero aceitar a minha própria realidade, não quero aceitar que te amo, que quero passar o resto da minha vida ao teu lado. Você sabe o quanto é duro se sentir mal por causa de um amor errado? Se sentir mal por não se aceitar...
   Entre a fumaça do seu cigarro ela soltava lágrimas e desabafos. Não fiquei chocada com o que havia acabo de presenciar.
   A atendente, ou melhor, Clarice tinha uma postura firme diante a Flora, olhando a nos olhos, sem nem uma expressão. Sua boca estava tensa para falar algo, não aguentou e disse.
   - Amor errado? A claro, errado é você me largar pra ficar com qualquer cara que aparece na tua frente pra tentar mudar quem você é, me diz, quantas vezes você olhou pra ele e sentiu nojo? Eu mesma perdi a conta...
   Estava no meio do fogo cruzado de olhares cheios de amor e ódio, cheios de duvidas e angustias. Agora entendia por que ela tinha um sorriso que não parecia ser dela, era um sorriso para disfarçar a verdade.
   Flora deixou o cigarro no cinzeiro, levantou do banco e saio com a maquiagem borrada por lágrimas amargas, e Clarice murmurou algo parecido com um "eu te amo", talvez quem realmente não queria aceitar era ela, não Flora.
   E acabou assim, Flora em sua felicidade forçada e Clarice perdida em um amor mal resolvido, e eu... só o que me faltava era sentar e escrever essa linda e trágica historia escondida no amanhecer do dia e acabada no trágico cair da noite e das lágrimas.  
   

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