quinta-feira, 7 de abril de 2011

15:15

   Te ver jogar sentimentos privada a dentro, te ver se sentir bem ao se matar aos poucos... Acho que para você agora é muito mais importante a aparência do que a vida. Alias, como você mesmo me disse "se for pra morrer, eu morro bonito e magro dentro de um terno caríssimo". 
   Te ver sem camisa era como ver um lençol por cima de um cabide. Por um instante quis chorar por você, mas engoli meu choro, coisa que nem isso você faz mais. Estou com muito medo por você, muito mesmo...
   Entrei em um corredor, fui dando passo por passo, ecoando e voltando, o brilho do meu oxford agora ja não existia mais, assim como os dos meus olhos. 
   Quarto 301.. 302... 303... 304 era esse que a moça da recepção havia falado, toquei levemente a maçaneta, tudo me passou pela cabeça. Não aguentei, voltei alguns passos, sentei no chão, me desfiz em lágrimas, me enchi de medo, entrou em mim o desespero. O que eu iria encontrar por traz daquela porta? Talvez nada. Nada mesmo.
   Vi alguém se aproximando, era a enfermeira, ela me olhou e disse:
   - Esta tudo bem senhorita? - com uma voz suave, e encantadora. 
   - Não, não estou nada bem, preciso de forças para o que me aguarda, mas não tenho. A falta de coragem agora mais parece um câncer que se espalhou por todo o meu corpo. 
   - Levante-se - disse a enfermeira - em que quarto esta a pessoa que quer ver?
   - 304 - falei baixo, quase sussurrando.
   - Vou ir nesse quarto mesmo, quer companhia até la?  
   - Não quero, preciso.
   Passei a mão no rosto para secar as lágrimas, ajeitei a bolsa no ombro, coloquei a mão no bolso. Mesmo sem coragem segui a enfermeira. Ela tocou na maçaneta e a abriu, anunciou. 
   - Há visita para você Brian. 
   Olhei para o meu melhor amigo deitado em uma cama de hospital, pálido, magro, com um olhar triste e sombrio. Peguei a sua mão, olhei para o fundo de seus olhos, então ele disse. 
   - Seu olhar já me diz tudo... se eu soubesse que essa doença iria afetar mais você do que a mim mesmo teria voltado atrás. Eu... eu não pude me conter, eu perdi o controle, era tentador, a busca pela beleza que já tinha e agora não tenho mais. Você me perdoa?
   - Inconstante como a lua, você sempre foi assim. Nunca demonstrou nem um afeto, mas eu sentia... Você sabe quanto tempo deixei o silêncio tomar o meu coração? Não... ver você se destruir, me destruiu. Como poderei não te perdoar, se quando amamos não há dor alguma que nos faça ser cruel.
   Ele me deu um sorriso e disse quase sem forças.
   - Estou bonito? 
   - Não mais...  
   Algo apitou. Hora da morte 15:15. 

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