sábado, 22 de outubro de 2011

Res(pirando)

Parte I  
O portão da clinica psiquiátrica era coberto de folhas e com flores rosa que ressaltavam entre o verde e meus olhos castanhos. Eu procurava enxergar la dentro, mas a única coisa que via era uma parte do teto laranja, parecia ter acabado de ser pintado. 
   Eu não sabia o porquê de estar ali, e também de estar nessa situação. Meu pai estava com um braço atrás do meu ombro e minha irmã dentro do carro chorando. Eu tinha medo de olhar pra traz e de ver aquelas lagrimas caindo, o som da sua angustia já me torturava o suficiente. 
   Ouvi um sinal de vida, vindo atrás do portão. Era a uma voz mansa e confortante. O portão foi abrindo aos poucos e seus cabelos castanhos claros foram aparecendo, ela estava vestida de azul e com um crachá com seu nome que não pude ler, pois ela já veio me abraçar e eu realmente não gostei disso. A falsidade saia de dentro dela e me pinicava completamente, eu sabia que ela não se importava se eu estava bem ou não, pra que perguntar? 
   Fui entrando e conhecendo superficialmente o espaço que me cercava. Era tão lindo e falso. Parecia ser feito estrategicamente para me deixar mais perturbada, todas as flores separadas em fileiras e bancos extremamente brancos, pessoas de uma olhar confuso e enfermeiras cobertas de descaso. Resolvi que já era demais pra mim e coloquei meus fones de ouvido e aumentei até o ultimo volume. Andei e conheci o jardim por conta própria. Bem, era o que eu achava. Uma mulher de branco me observava de canto ignorando a sua paciente ao lado clamando sua atenção, olhei a fixamente, e virei o rosto, continuei a minha caminhada na qual havia certeza que não daria a lugar algum.
   A enfermeira foi se aproximando e resolveu que ia falar comigo, mas eu não tinha resolvido se ia respondê-la, alias. Evito contato com as pessoas, tenho medo do que posso falar ou fazer com elas.
- Bom dia, meu nome é Ane e o seu? – cínica.
- Charlote.
   Eu realmente esperava que ela tivesse entendido o timbre da minha voz e se afastado, mas ela insistia em acabar ouvindo algo desagradável aos seus ouvidos.
- Então Charlote o que faz aqui?
- Vim Passar um fim de semana descontraído. Sabe nada melhor que passar sábado e domingo inteiro com a mais pura diversão no meio de loucos.
    Ela fez uma cara de surpresa e depois deu um sorriso de canto, mexeu nos cabelos pretos, estralou os dedos. Todos esses movimentos eram pra ganhar tempo e arranjar uma resposta.
- Essas pessoas não são loucas. E se você esta aqui é porque esta com problemas que nem os outros.
- Bom, se elas não são loucas não sei o que fazem aqui.
   Irritei-me profundamente, e sai antes que acabasse pulando em cima dela e arrancando aqueles olhos verdes perfeitos e impuros. Eu via no seu jeito de olhar as outras pacientes, eu via o que no fundo o que ela queria fazer com elas, porque era a mesma coisa que eu queria fazer com ela.
   Fui para dentro daquela enorme clinica e meu pai estava na porta me esperando, a mulher de azul me acompanhou até uma sala linda com um toque vintage e me pediu para esperar a Dra. Tyler. Tenho a péssima mania de tentar decifrar o que o espaço quer dizer, acho essa coisa meio antiga dos moveis muito legal, mas isso me remete a uma pessoa observadora e sinceramente, pessoas observando-me me deixa descontrolada, completamente perturbada.
Ela abriu a porta e foi entrando como se eu não existisse, só depois que sentou pareceu notar a minha presença.
- Bom dia, Charlote né? – disse ela.
- Sim.
- Então, o que faz aqui?
Eu realmente tenho a resposta na ponta da língua, mas o medo de falar parece que isso vai se tornar verdade.
- Eu não sei, meu pai me trouxe aqui na esperança que você descubra.
- Esta bem, hoje eu não tenho muito tempo para longas conversas Charlote – e espero que nunca tenha- só queria lhe conhecer, a Ane vai lhe mostrar seu quarto. Você vai ficar aqui no mínimo uma semana, mas não se preocupe é um ótimo lugar para relaxar.
Algo me subiu na garganta e eu não pude conter.
- EU NÃO QUERO RELAXAR! Eu só quero sair daqui, eu to me sentido vigiada e com uma vontade de atacar todos a minha volta, vai atrás do meu pai e pede pra ele me tirar daqui! Eu não sou como essas pessoas, eu não sou louca!