domingo, 27 de novembro de 2011

Res(pirando)

Parte II


Posso parecer fascinante, mas eu sou um problema. Um grande problema completamente perdido. As pessoas não entendem pelo que passo, ou o que desencadeou tanta revolta e esse olhar sangrento.
Andando por aquele corredor branco e vendo as pessoas que moravam la, foi meio que acordar de um pesadelo, acho que comecei a ver o lado bom, por mais impossível que ele pareça existir. La eu estava livre de tudo aquilo, eu não precisava mais mentir, fingir e armar pra cima das pessoas. No mundo la fora eu sou chamada de falsa, aqui, eu sou apenas uma paciente com sérios problemas psicológicos.
Alguns dizem que eu sou uma sociopata outros falam que é apenas uma fase. Vamos concordar que se a vida fosse feita de fases seria muito mais fácil, mas não, tudo o que passei vai continuar comigo e não vai ficar no level 1. E é muita bagagem pra carregar, tenho que pagar uma taxa extra pro futuro. As pessoas dizem que ele é inserto, mas não pra mim, sei muito bem o que me aguarda depois desse paraíso que as pessoas evitam chamar de hospício, e tenho certeza que não vai ter nada a ver com cheiro de grama molhada e gosto de maçã verde.
12, 13, 14... Fui passando pelos quartos até chegar ao meu, 17. Descobri que tinha uma colega de quarto, mas ainda não sabia quem era. Ela havia ido passar o fim de semana com a família, a enfermeira intrometida Ane falou que pacientes com bom comportamento são liberados um final de semana por mês. Que bom né? Não vejo à hora de passar um fim de semana de novo naquela cidade cheia de pessoas mesquinhas que fingem que se importam, parece até que elas não sabem que eu sou capaz de sentir o cheiro da mentira.
Não havia nada demais naquele quarto, tinha uma mesa, duas camas, um guarda roupa e um banheiro. A cama ao lado da minha estava completamente desarrumada e cheia de roupas, livros e maquiagens em cima. Algumas roupas me pareciam muito familiares. Coloquei a mala em cima da cama e guardei as minhas roupas na parte livre do guarda roupa cheio de repartições, por mim isso é frescura.
Sentei na cama, levantei, sentei, levantei. Não gostei. Vou demorar a me acostumar com ela, já a vista da janela do meu quarto que dava direto ao jardim cheio de bancos brancos, essa eu já estava familiarizada.
Fui dar uma volta e percebi que a maioria das pessoas internadas aqui não tem noção do que esta se passando com elas, outras até acham que não existe um mundo la fora, as vezes eu queria ter metade dessa ingenuidade.
Voltei pro quarto, deitei na cama, fechei os olhos e comecei a pensar na minha situação. Às vezes eu tenho certeza do que estou fazendo aqui, já outras, eu não faço ideia. Eu me pergunto quais são os meus defeitos e depois me pergunto novamente. São defeitos mesmo?

3 comentários:

  1. Acho que me apaixonei por esse blog.
    E pelos textos.
    E por tudo.

    Já te sigo.
    Parabéns!
    www.delicadoeu.blogspot.com
    Espero uma visita sua no meu cantinho.
    Au revoir!

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