domingo, 8 de janeiro de 2012

Res(pirando)

Parte III - Final   
                                                   
- O que você tem?
-Nada– suspirei. – talvez, falta do que fazer, enjôo, tédio, raiva, ansiedade...
-Charlote, você tem só 17 anos e se leva muito a sério, você se sufoca, não da uma chance a si mesma, não admite o seu problema. Querida, você é uma pequena menina de mente grande enlouquecendo a si mesma.
Talvez ela estivesse certa, eu estava me enlouquecendo...
 - Dra. Tyler eu sei o que eu tenho, acha que não? Mas sabe o quanto é estranho você não sentir quase nada? É como se você não tivesse vida, é como se você só tivesse no mundo pra observar os sentimentos do outros.
- Também temos que conversar sobre uma coisa que eu ando percebendo Charlote. Você anda com muitos machucados e aqui ninguém esta te agredindo. Seja sincera, você esta se machucando de propósito? Aonde você quer chegar?
-Em lugar nenhum, eu só me firo por fora tentando matar o que tem dentro.
- E o que tem dentro?
- Um monstro.
Alguém bate na porta interrompendo a troca de olhares preocupados. Dra. Tyler pede para entrar, é a enfermeira mais querida de toda a clinica, Ane, quem mais poderia ser?
Ela queria saber sobre os remédios que ia dar hoje aos pacientes, no qual me incluía. Como se eu tomasse alguns daqueles remédios, não quero cair na cama dopada e acordar dois dias depois, parece até certo exagero meu, mas, não custa prevenir.
Sai da sala e fui para o meu quarto, encontrei a porta aberta e lembro claramente que a deixei fechada. Fui me aproximando imaginando se era a minha colega de quarto que havia chegado, eu realmente não queria que fosse.
Ela estava de costas olhando para a janela, não queria interromper esse momento, fiquei quieta no meu canto sem que ela notasse minha presença. Tinha cabelos loiros compridos, alta, pele branca, usava uma saia azul e um casaco fino bege, estava de bota cano alto preto. Ela se virou, conforme a claridade foi deixando o seu rosto, fui olhando aqueles traços tão perfeitos, bochechas rosadas, boca desbotada, olhos castanhos e bem definidos.
Tudo bem, ultimamente a vida anda brincando com o meu humor.
- Qual seu nome novata?- disse ela com um certo sarcasmo desabrochado entre as palavras.
 - Charlote...
- Bem vinda ao inferno, só se faça um favor. Não se acomode aqui.
Sabrina, esse era o nome da minha companheira de quarto. Ela estava aqui porque mentia demais. Como se mentir fosse um problema, mentir é criar uma realidade suportável pra você mesma.
Deitei na cama e fechei os olhos, fiz viagens ao passado, olhando o trem andar mesmo estando parado vendo as pessoas embarcarem nele tão felizes sem saber o que as aguarda e o pior disso tudo é que eu me divirto vendo elas sofrerem, me divirto.
Sabe como é se sentir triste em uma casa onde todos são felizes? Talvez eu fosse louca mesmo, talvez... Nada. A vida é tão mesquinha que precisamos fugir da realidade, as vezes é bom  ver pessoas roxas ou falar com pessoas que não existem. Mas então esse teu momento de devaneio, o sua ultima esperança antes de se enforcar na sala de estar ou no porão é chamado de loucura...
Os dias aqui passam rápido, continuo sem tomar remédios, sem atender as ligações dos meus pais, ignorando as palavras da Dra. Tyler apenas concordando, mesmo descordando. Se o único modo de sair daqui é admitir algo que eu não tenho, vamos lá, pra mim é mais fácil que brincar de casinha.
Depois de longos quatro meses nessa clinica eu ganhei alta, já era maior de idade. Era hora de voltar pra casa, mas eu não tenho uma.
Convenci meus pais a me darem um dinheiro pra sair daqui. Aluguei uma casa em paris. Ela ficava em frente a um parque e a rua era muito florida, a calçada ainda estava molhada da ultima chuva e não importa quanto sol faça ela ainda vai continuar assim.
Não adianta mudar o cenário se a situação é a mesma. Agora eu penso que talvez eu não seja louca. Apenas uma menina que não deixaram respirar. 

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