sexta-feira, 13 de junho de 2014

Prescrito

  Bom, então boa noite. Te encontro nos corredores do hospital de novo, se eu sobreviver ao quarto gelado e a comida de merda, a ironia das enfermeiras e a animação do residente em fazer pontos onde não há corte.
    Já ouviu falar daquela doença que vai enfraquecendo abatida do coração, e quando ele para de bater, você percebe que esta curada? Não? Eu estava curada, e o meu sangue sabia percorrer o caminho difícil das minhas artérias. Devia deixar o seu sangue livre também, um pouco de liberdade não faz mal a ninguém.
   Mas eu acho que o seu caso é um pouco mais grave que o meu, você sente uma dor no peito mais forte que a da consciência. Alias, ouvi a enfermeira dizer que a coisa ta feia, acho melhor fazer o testamento e deixar os seus discos e livros para alguém que realmente aprecie.
   Pra não ser mesquinha, pois também estou na merda, fiz meu testamento também, e é bem simples, são algumas palavras e um punhado de lembranças, que cabem entre as suas mãos. Mesmo sabendo que as suas mãos tremem, eu vou colocar o resto do meu futuro nelas, porque meu caro vizinho de quarto, somos considerados pacientes terminais com sérios problemas de palpitações.

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